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Medos de uma criança nos anos 70 e 80 – Parte I

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  A criança tem alto grau de sensibilidade e percebe coisas que mais ninguém sente.   A sensibilidade infantil é bastante semelhante à do artista e à do médium. Alguns medos infantis se transformam em motivo de risada depois que se cresce, mas, naquela fase, eles são coisa séria. Tiram noites de sono, tanto quanto dívidas ou problemas de saúde deixam um adulto insone. Crianças passam boa parte de seu tempo numa dimensão de fantasia que comumente se mistura e se confunde com a realidade que, devido a essa fase do desenvolvimento psíquico, é ainda cercada de mistérios. Falta a elas a experiência de saber que certas coisas são impossíveis no plano real (serão mesmo?) ou são máscaras que escondem algo com fundo lógico, capaz de ser esmiuçado, explicado e resolvido. Mais uma vez eu programo minha máquina do tempo para voltar à época de infância e de adolescência e lembrar de coisas do folclore, lendas urbanas, personagens fictícios e da vida real, filmes,   programas de TV...

Brincadeiras cabulosas de áureos tempos

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O tempo virou. Começou com uma ventania e, no meio da tarde, veio a chuva, trazida por uma frente fria que começou longe. Esse clima gótico e o fato de ser uma sexta-feira me encheram de nostalgia (ouça Remember a day , do Pink Floyd, e veja na sua tela mental aquele sol pálido e matutino de fotografia antiga ou de sonho). E esse aperto no peito me fez pensar em algumas brincadeiras sinistras que se fazia na infância. Crianças gostam de testar limites e desafiar o medo. Não era à toa que brinquedos de parque de diversão como o Trem Fantasma, a Casa das Bruxas e a famosa Konga (em São Paulo, Monga), a Mulher Gorila, eram concorridos e formavam-se filas imensas diante de suas entradas – eu ficava fascinado com as pinturas macabras da estrutura externa do Trem Fantasma do Tivoli Park, no Rio de Janeiro. Tinha vontade de levar para casa. Adoraria ter as paredes do meu quarto cobertas por aqueles desenhos sinistros.  Algumas dessas brincadeiras não tinham um nome, tal como as brincadeir...

O sobrenatural imita a arte

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  Quatro peças de um jogo de algures, por Adribas. Eu cresci imerso no mundo do horror, do sobrenatural, da fantasia e da ficção científica, lendo quadrinhos e assistindo a filmes desses gêneros. Nos quadrinhos, até eu aprender a ler, eu ficava viajando nos desenhos e tentando reproduzi-los, imitando toscamente com as minhas “canetinhas” Silva Pen ou Pilot os traços de um Corben, de um Wrightson e de tantos outros artistas que eu admirava. O que me chamava mais a atenção, nos quadrinhos e filmes, eram os monstros: lobisomens, vampiros, mortos-vivos, múmias, esqueletos ambulantes, criaturas disformes, duendes saltitantes, demônios, alienígenas, robôs (naquela época eu incluía os robôs no rol dos monstros; eu achava, por exemplo, que o Darth Vader era um robô). Eles inclusive eram meu requisito para assistir a algum filme no cinema: eu olhava os cartazes; se tivesse monstro, já despertava o meu interesse. Uma prima de minha avó, que estava passando uma temporada conosco e que passo...

A Era dos Bebês-diabo

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Entre o final dos anos 60 e metade dos anos 80 houve uma forte presença de bebês-diabo na cultura do nosso cansado planeta. Eles apareceram nos quadrinhos, no cinema, nas artes de capas de álbuns de heavy metal e até mesmo em manchetes de um controverso jornal de São Paulo de tendências sensacionalistas. Tudo parece ter começado com o filme  O Bebê de Rosemary , em 1968, adaptação de Roman Polanski para o cinema de um livro de Ira Levin. O bebê em questão é fruto de uma relação involuntária entre Rosemary e o próprio Satã, encarnado em seu marido, promovida por um culto de bruxos e bruxas. A intenção era trazer ao mundo o filho do diabo, que seria o rei e redentor de todos os perseguidos e queimados. Para decepção de muitos (não minha), o bebê-diabo não é mostrado, apenas Rosemary revela seu estranhamento a respeito dos olhos da criança (“O que fizeram com ele? O que fizeram com os olhos dele?”), ao que Steven, bruxo mestre do coven responde: “Ele tem os olhos do pai (...) Satã é o...

O Mescalito era um Poodle Bípede

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 Desenho: Poodle Mescalito, por Adribas. Poodles dançarinos me incomodam. Poodles dançarinos são aqueles poodles treinados para andar sobre as duas patas, eretos, como se fossem pessoas, em espetáculos de circo ou shows de variedades de TV. Na verdade, não é só o fato de eles andarem sobre as duas patas traseiras que me incomoda, mas a questão do estilo da tosa, no qual restam aqueles pompons de pelo nas pontas das orelhas, no topo da cabeça e na ponta do rabo, deixando-os com visual de “cachorro de madame” (ou de puxador de cortina. Uma vez, um amigo se aproximou da janela da minha casa, pegou a ponta do puxador da cortina, encostou na própria orelha e disse com uma expressão cínica: “Um poodle”. Eu e os demais presentes entendemos a piada, mas jamais compreendemos o porquê da performance, já que cães não tinham sido objeto do bate-papo daquela tarde.) Essas aparições são raras hoje em dia, já que a maioria dos circos parou de trabalhar com animais, porém, volta e meia eu aind...

A Reencarnação do Limo que Embeleza o Tapete

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Este blog já teve outra vida. Sim, senhoras e senhores, ele nasceu em algum momento de 2005 e partiu desta para melhor (será?) em algum momento de 2009, se não me falha a memória rã. Era um blog literário, no qual eu costumava postar contos de minha autoria. Como não era um blog perfeito, como não atingiu o satori, após a ida para o oriente eterno, não conseguiu se extinguir no nirvana, e ficou vagando pelo bardo, perdido em ilusões e lutando contra seus próprios demônios. Por sorte, não chegou a se transformar num preta (lê-se préta) ou hungry ghost (ou encosto, no bom português), o que foi ótimo, pois, assim, não cometeu um dos maiores pecados, que é encher a paciência alheia. No dia de ontem, o bom e velho Limo que Embeleza o Tapete foi atraído pela Roda de Samsara e renasceu neste reino de pouca fortuna. E cá estamos. A ideia é postar sobre assuntos de interesse privado (ou desinteresse público), amenidades, curiosidades, cultura pop, outras culturas, alertas (wise up aê), enfim, f...

O insólito link entre Black Sabbath, Lion Man e Chapolin

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  Eu ainda me lembro do dia em que eu comprei o Paranoid, do Black Sabbath, em vinil. Acho que foi numa bela tarde de 1989. Eu tinha acabado de conhecer a banda, por meio do primeiro álbum, homônimo, aquele com a bruxa na capa, e queria conhecer os outros, porque já tinha virado fã. Assim que cheguei em casa, coloquei o disco no som pra ouvir, sentei na cama e, enquanto ia conhecendo aquelas músicas, fiquei olhando a capa e a contracapa, lendo os créditos (ritual de praxe daquela época, ficar viajando com as capas enquanto se degustava a música) e tentando entender o que seria aquele maluco vestido como um super-herói, que parecia pular de trás de uma moita para surpreender alguém ‒ ou ele estaria sozinho naquele lugar? Seria ele o paranoico, o tema do álbum? Ou o porco de guerra (já que o álbum originalmente iria se chamar War Pigs)? Talvez os dois, um porco de guerra/guerreiro paranoico. Tempos depois, quando comprei a versão em CD, de vez em quando eu me pegava observando aquela...